quarta-feira, maio 09, 2007

A Conquista da América - A Questão do Outro



Título: A Conquista da América - A Questão do Outro
Autor: Tzvetan Todorov
Editora: Martins Fontes


"Seria interessante fazer uma aproximação entre os traços da mentalidade asteca destacados e o que uma forma de sacrifício, evocada por Dúran, ensina acerca do funcionamento do simbólico: 'Quarenta dias antes da festa, um índio era vestido como o ídolo, com os mesmos adereços, de modo que aquele escravo índio vivo representasse o ídolo. Após ter sido purificado, era honrado e celebrado durante quarenta dias, como se fosse o próprio ídolo (...) Depois dos deuses serem sacrificados, eram todos esfolados rapidamente (...). O coração era arrancado e oferecido a leste, e depois os esfoladores, cuja função era essa, traziam o corpo morto novamente para baixo e fendiam-no da nuca até os calcanhares, esfolando-o como um cordeiro. A pele saía inteira. (...) Os outros índios vestiam imediatamente as peles em em seguida o nome dos deuses representados. Por sobre as peles traziam os adereços e as insígnias das mesmas divindades, cada homem recebia o nome do deus que representava e se considerava divino.
Num primeiro momento, portanto, o prisioneiro literalmente tornava-se deus: recebe seu nome, aparência, insígnias e tratamento; pois para absorver o deus, será preciso sacrificar e consumir seu representante. Contudo, são os homens que decidiram essa identificação, e não esquecem isso, já que recpmeçam todos os anos. E agem como se confundissem o representante com aquilo que representa: o que começa com uma representação acaba em participação e identificação; parece faltar a distância necessária para o funcionamento simbólico. De reso, para se identificar a um ser ou a uma de suas propriedades (mulheres são freqüentemente esfoladas em ritos religiosos ligados à fertilidade), veste-se, literalmente, sua pele. Isso faz pensar na prática das máscaras, que podem ser feitas à semelhança de um indivíduo. Porém, a máscara, justamente, se parece com, mas não faz parte daquele que representa. Neste caso, o próprio objeto da representação permanece, pelo menos na aparência (a pele); o simbolizante não está realmente separado de seu simbolizado. Tem-se a impressão de que uma expressão figurada foi tomada ao pé da letra, que se encontra a presença onde era esperada a ausência; curiosamente, temos a fórmula "se pôr na pele de alguém",o que não implica que sua origem seja um rito de esfolamento humano.
Fazendo este levantamento das características do comportamento simbólico dos astecas sob levado a constatar não somente a diferença entre duas formas de simbolização, como também a superioridade de uma em relação à outra; ou melhor, e para ser mais preciso, sou levado a deixar a descrição tipológica, para me referir a um esquema evolutivo. Será que isso significaria adotar, pura e simplesmente, a posição dos desigualitaristas? Penso que não. Há um campo no qual a evolução e o progresso não podem ser postos em dúvida: é, grosso modo, o da técnica."



TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América - A Questão do Outro. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 154-155.

Aprender Antropologia



Título: Aprender Antropologia
Autor: François Laplantine
Editora: Brasiliense


"Antes do final do século XVIII", escreve Foucault, "o homem não existia. Como também o poder da vida, a fecundidade do trabalho ou a densidade histórica da linguagem. É uma criatura muito recente que o demiurgo do saber fabricou com sua próprias mãos, há menos de duzentos anos (...) Uma coisa em todo caso é certa, o homem não é o mais antigo problema, nem o mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. O homem é uma invenção e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto é recente. E", acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas, "quão próximo talvez seja o seu fim".




LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 55

Antropologia Cultural



Título: Antropologia Cultural
Autor: Franz Boas
Editora: Jorge Zahar

"Os textos aqui traduzidos foram publicados em Race, Language and Culture (1940), coletânea organizada por Boas quase no final da vida. (...) Boas privilegiou os textos da fase madura, na qual suas idéias e sua posição institucional estavam mais consolidadas (...) A concepção boasiana de cultura tem como fundamento um relativismo de fundo metodológico, baseado no conhecimento de que cada ser humano vê o mundo sob a perspectiva da cultura em que cresceu - em uma expressão que se tornou famosa, ele disse que estamos acorrentados aos 'grilhões da tradição'. O antropólogo deveria procurar sempre relativar suas próprias noções, fruto da posição contingente da civilização ocidental e de seus valores. (...) Mas o relativismo cultural não era, para Boas, apenas um instrumento metodológico. A percepção do valor relativo de todas as culturas - a palavra aparece no plural, e não no singular, como no caso dos evolucionistas - servia também para ajudar a lidar com as difíceis questões colocadas para a humanidade pela diversidade cultural. (...)



BOAS, Franz. Antropologia Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, pp. 15, 19.

Cultura - Um Conceito Antropológico



Título: Cultura – Um Conceito Antropológico
Autor: Roque de Barros Laraia
Editora: Jorge Zahar

Para Ruth Benedict, a cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas. (...) A nossa herança cultura desenvolvida através de inúmeras gerações, sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. Por isso, discriminamos o comportamento desviante. (...) O modo de ver o mundo, as depreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamento sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura. (...) O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela concorrência de numerosos conflitos sociais. (...) Tais crenças contêm o germe do racismo, da intolerância e, freqüentemente, são utilizadas para justificar a violência praticada contra os outros. (...) O ponto fundamental de referência não é a humanidade, mas o grupo. Daí a reação, ou pelo menos a estranheza em relação aos estrangeiros (...) Comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais.



LARAIA, Roque de Barros. Cultura – Um Conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, ps. 69-76.