A Conquista da América - A Questão do Outro

Título: A Conquista da América - A Questão do Outro
Autor: Tzvetan Todorov
Editora: Martins Fontes
"Seria interessante fazer uma aproximação entre os traços da mentalidade asteca destacados e o que uma forma de sacrifício, evocada por Dúran, ensina acerca do funcionamento do simbólico: 'Quarenta dias antes da festa, um índio era vestido como o ídolo, com os mesmos adereços, de modo que aquele escravo índio vivo representasse o ídolo. Após ter sido purificado, era honrado e celebrado durante quarenta dias, como se fosse o próprio ídolo (...) Depois dos deuses serem sacrificados, eram todos esfolados rapidamente (...). O coração era arrancado e oferecido a leste, e depois os esfoladores, cuja função era essa, traziam o corpo morto novamente para baixo e fendiam-no da nuca até os calcanhares, esfolando-o como um cordeiro. A pele saía inteira. (...) Os outros índios vestiam imediatamente as peles em em seguida o nome dos deuses representados. Por sobre as peles traziam os adereços e as insígnias das mesmas divindades, cada homem recebia o nome do deus que representava e se considerava divino.
Num primeiro momento, portanto, o prisioneiro literalmente tornava-se deus: recebe seu nome, aparência, insígnias e tratamento; pois para absorver o deus, será preciso sacrificar e consumir seu representante. Contudo, são os homens que decidiram essa identificação, e não esquecem isso, já que recpmeçam todos os anos. E agem como se confundissem o representante com aquilo que representa: o que começa com uma representação acaba em participação e identificação; parece faltar a distância necessária para o funcionamento simbólico. De reso, para se identificar a um ser ou a uma de suas propriedades (mulheres são freqüentemente esfoladas em ritos religiosos ligados à fertilidade), veste-se, literalmente, sua pele. Isso faz pensar na prática das máscaras, que podem ser feitas à semelhança de um indivíduo. Porém, a máscara, justamente, se parece com, mas não faz parte daquele que representa. Neste caso, o próprio objeto da representação permanece, pelo menos na aparência (a pele); o simbolizante não está realmente separado de seu simbolizado. Tem-se a impressão de que uma expressão figurada foi tomada ao pé da letra, que se encontra a presença onde era esperada a ausência; curiosamente, temos a fórmula "se pôr na pele de alguém",o que não implica que sua origem seja um rito de esfolamento humano.
Fazendo este levantamento das características do comportamento simbólico dos astecas sob levado a constatar não somente a diferença entre duas formas de simbolização, como também a superioridade de uma em relação à outra; ou melhor, e para ser mais preciso, sou levado a deixar a descrição tipológica, para me referir a um esquema evolutivo. Será que isso significaria adotar, pura e simplesmente, a posição dos desigualitaristas? Penso que não. Há um campo no qual a evolução e o progresso não podem ser postos em dúvida: é, grosso modo, o da técnica."
TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América - A Questão do Outro. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 154-155.


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