sábado, junho 09, 2007

Saúde Mental, Crime e Justiça



“Os primeiros filósofos gregos criticaram a mitologia; interessavam-se pelos fenômenos naturais e não se satisfaziam com as explicações religiosas; por isso, ficaram conhecidos como os ‘filósofos da natureza’. O filósofo Xenófanes (570 a.C.) afirmou que as pessoas criam os seus deuses á sua própria semelhança: ‘os mortais acreditam que os deuses nascem, falam e se vestem de forma semelhante à sua própria’. (...) Sócrates se auto-denominava filósofo, querendo, com isso, marcar a sua posição de não se considerar como dono de certezas absolutas, mas sim de alguém cujo objetivo é chegar ao conhecimento e que reconhece que há muita coisa além daquilo que ele pode entender (...) Ele acreditava que a capacidade de distinguir entre certo e errado estava no homem e não na sociedade e achava que havia regras universais que regulavam o agir dos homens, ou seja, que elas eram todas mutáveis. (...) Platão, discípulo de Sócrates, com sua teoria das idéias, achava que o homem trazia com ele, ao nascer, idéias inatas. (...) Aristóteles não negava que o homem tivesse uma ‘razão inata’, mas, para ele, as idéias não eram inatas; todas as idéias e pensamentos penetravam na consciência a partir da experiência vivida. (...) Spinoza postulou que o homem é livre no sentido de que possui liberdade para desenvolver todas as possibilidades que lhe são inerentes, mas que as circunstâncias de vida podem obstruir nossa evolução e nosso crescimento pessoal (...) Somos governados pelo nosso potencial interno e pelas circunstâncias exteriores. (...) Hume valorizou muito o mundo cotidiano como ponto de partida para suas reflexões e chamou a atenção para o fato de que, como quando sonhamos, nossas mentes constróem idéias a partir das impressões que temos das experiências cotidianas (...) O que queria era que observássemos verdadeiramente as coisas e prevenir-nos contra o hábito, a fim de que não nos tornássemos escravos das nossas próprias expectativas. (...) Kant achava que tanto o sentido quanto a razão eram muito importantes para a nossa experiência de mundo. Da mesma maneira, tempo e espaço eram atributos da nossa consciência; nós percebemos as coisas no tempo e no espaço e as ‘leis da natureza’, para ele, são, na verdade, leis do conhecimento humano; a mente humana considera tudo o que acontece dentro de uma relação de causa e efeito. Existe uma forma de conhecimento que é inerente ao homem. (...) Para Kant o homem tem uma noção inata do certo e do errado; todas as pessoas entendem os acontecimentos do mundo como causados por uma consciência – que vale para todas as pessoas, em todas as sociedades, em todos os tempos.
Nesse fragmento da história, observamos o percurso de pessoas que viveram e que se colocaram questões profundas sobre a vida há mais de dois mil anos e nos confrontamos com uma realidade parecida: no fundo, sabemos pouco. Essa constatação pode ser profundamente angustiante quando nos encontramos frente à necessidade de dar e sustentar respostas para os fenômenos mentais que observamos, vivemos e apreciamos.”


PEPE, Mafalda Janasievicz. Personalidade. In: Saúde Metal, Crime e Justiça. São Paulo: Edusp, 1996, pp. 187-189.